terça-feira, 27 de outubro de 2009

Paulo Leminski, o homem, suas palavras, seu tempo

"Lembrem de mim como de um que ouvia a chuva, como quem assiste missa, como quem hesita, mestiça, entre a pressa e a preguiça"



Paulo Leminski tinha pressa, muita pressa (mas não aquela pressa competitiva, tão em moda nos tempos de yuppismo globalizante do final dos anos 80 e começo dos 90 — e que ainda ecoa no início do século 21). Talvez porque percebesse desde sempre que seria chamado mais cedo pelos deuses. Muito também porque era dono de uma personalidade intensa, ligada o tempo todo, marcada por um sentido de urgência.

Essa personalidade eletrificada, de um poeta em tempo integral, transparece em toda a sua obra. Em Leminski, o foco de interesses não está centrado num cânone rígido e restrito. Sua multiplicidade atrai referências de diversas épocas e culturas: da poesia clássica chinesa ao blues afro-americano, da patafísica de Jarry ao vigor samurai de Yukio Mishima, dos clássicos gregos ao rock'n'roll, do haicai japonês ao tropicalismo, de Cruz e Souza a Leon Trotsky, de James Joyce a John Fante, de Samuel Beckett à Cartola, de poemas do Egito Antigo ao videotexto, do supraerudito ao supremo popular, do universo cósmico de uma biblioteca aos movimentos mundanos.

Não se confunda essa capacidade imantadora com um simples ecletismo oportunista. Não. Ciente de que arte e cultura são matéria viva, para vivos, Leminski soube construir pontes, estabelecer links entre ricos tecidos culturais. O poeta orgulhava-se das canções que tinha composto, sozinho ou em parceria, muitas transformadas em verdadeiros clássicos na voz de Itamar Assumpção, Caetano Veloso, Moraes Moreira ou Ney Matogrosso. Orgulhava-se também de pertencer à geração que pretendeu “derrubar as estantes, as estátuas, as vidraças”. Por outro lado, cultivava um profundo rigor e erudição, herdados da familiaridade com os grandes textos da humanidade, de Ovídio a James Joyce. Intelectuais de primeira grandeza, como Haroldo de Campos, perceberam rapidamente a peculiar originalidade de sua poesia: o hábil artesanato aliado à urgência e à rebeldia de um Frank Zappa ou dos Rolling Stones. Onde houvesse inconformismo, densidade, criatividade extremada, lá estava ele. Dono de vastíssimo repertório, está decibéis acima do neochique intelectualismo (reaça pra caralho) que grassa e glosa pelas plagas brasileiras.

Embora muitos tentem minimizar a sua importância, ora situando-o como um simples apêndice concretista ou tropicalista, ora como um mero frasista de espírito polêmico (o que disseram de Oswald de Andrade?), ou ainda apontando dedos para um suposto looping decadente no final de sua breve vida, o tempo e a ação crítica das novas gerações certamente vão recolocá-lo em seu devido lugar: como um dos poetas brasileiros fundamentais do século 20.

Mas de afirmações de “maior poeta”, “um dos mais importantes”, e coisas do tipo, o inferno está cheio. O importante é saber: por que Leminski tem tal estatura?
 
 
 
fonte: Jornal Vaia